sexta-feira, 20 de setembro de 2019

INTEGRANTES DO MOVIMENTO NEGRO BRASILEIRO PARTICIPAM DE REUNIÃO DA ONU E DENUNCIAM VIOLAÇÕES


Nesta semana, entre os dias 16 e 20, integrantes do movimento negro participam da 42ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, a ONU.
Para o grupo, um dos objetivos do encontro é denunciar alterações legislativas que podem agravar o genocídio da população negra no Brasil, como o pacote apresentado pelo atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro. A agenda é fruto de carta enviada, em agosto, com apontamentos técnicos sobre a situação dos negros no país.
Outros temas, como os decretos armamentistas do presidente Jair Bolsonaro, as discussões sobre a Base de Alcântara, no Maranhão, a situação dos pescadores e pescadores da região da Bahia de Todos os Santos, em Salvador, o Censo de 2020 e o racismo religioso serão abordados pelos brasileiros.
Biko Rodrigues, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), Eliete Paraguassu, liderança do Movimento de Pescadoras e Pescadores e Douglas Belchior, da Uneafro Brasil são os representantes da luta antirracista em Genebra. A articulação contou com o apoio da Conectas, entidade de direitos humanos.
Os representantes do Brasil fazem parte da Coalizão Negra Por Direitos, organização que reúne 60 entidades da sociedade civil e representantes da população negra para reivindicar melhores condições à população afro-brasileira.
Para Douglas, um dos desafios da viagem é promover o trabalho da Coalizão internacionalmente em busca de apoio em prol de direitos humanos dos negros no Brasil. “Nosso esforço é firmar a Coalizão como uma frente do movimento que opera ações políticas no sentido de denunciar violações e exigir direitos sociais. É uma reparação histórica muito importante”, define.
Nesta quarta-feira, pela manhã, os três acompanharam plenárias com representantes da sociedade civil e reuniões com grupos especiais, dedicados a perseguição religiosa e execuções sumárias. De tarde, estiveram em reunião com a coordenação do Grupo de Trabalho de Pessoas de Descendência Africana da ONU.
O representante da CONAQ avalia que o encontro oferece oportunidade de apresentar as pautas da população negra, atualmente ignoradas pelo atual governo no país. “Hoje, mostramos ao comissariado da ONU nossas preocupações e angústias com o que acontece no Brasil”, definiu. “Estamos em Genebra para denunciar as violações do Estado brasileiro frente a população negra. A violência ataca a nossa cor”, completa Biko.
Produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Atlas da Violência deste ano apontou que 75,5% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. A cada pessoa não negra que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos. Nos primeiros dias de setembro, o Anuário da Violência também apontou que 75% dos mortos pelas polícias brasileiras são pessoas negras.
Para Eliete, o momento político do país é grave e suas consequências negativas atingem os mais pobres, sobretudo as comunidades tradicionais, como os pescadores e os quilombolas.
“Estamos juntos para combater as violências. Vamos fazer o enfrentamento para nos manter no território, proteger as coisas que nos são sagradas, como a natureza e as nossas vidas”, defende.
Próximos dias
A agenda continua nos próximos dias. Nesta quinta-feira, 19, o grupo se reúne com Nathalie Prouvez, chefe da Seção Democracia e Estado de Direito do alto comissariado da ONU. Em seguida, a reunião será com Todd Howland, responsável pelo desenvolvimento das questões econômicas e sociais da ONU.
Às 13h30, acontecem atividades promovidas por organizações da sociedade civil brasileira, entre elas a Conectas e a Assessoria Popular Maria Felipa. Ainda estão programadas algumas reuniões, inclusive com representantes da União Europeia.
A agenda da Coalizão vai até sexta feira, 20.


quarta-feira, 18 de setembro de 2019

LANÇADA NA ALERJ FRENTE PARLAMENTAR DE ENFRENTAMENTO À PEDOFILIA

Texto e edição: Adilson Gonçalves
/ Fotos: assessoria do evento
Em uma ação conjunta dos deputados Professor Joziel, parlamentar federal, do PSL, e Rosana Félix, estadual, PSD, foi realizado o 1º Simpósio Enfrentando a Pedofilía, nesta segunda feira, dia 16. O Evento aconteceu no Plenário Barbosa Lima Sobrinho da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Ambos parlamentares são integrantes da  Frente Parlamentar Mista de Enfrentamento à Pedofilia: o professor Joziel é o presidente da frente e Rosane Félix (PSD/RJ), presidente da Comissão de Assuntos da Criança, do Adolescente e do Idoso da Alerj.
Com o plenário da Alerj lotado, além dos parlamentares, compuseram ainda a mesa a Promotora de Justiça e Coordenadora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça Criminais (CAO Criminal/MPRJ), Somaine Cerruti; a delegada federal Paula Mary Reis; o delegado Adilson Palácio, da Delegacia de Atendimento à Criança e Adolescente Vítima (DCA); a conselheira tutelar Susana Leone; o jurista Gerson Paulo e a advogada Silvana do Monte, especialistas no tema. Durante seus relatos, foram citados fatos escabrosos, como por exemplo o da criança que era abusada pelo pai e avô paterno.
“Esse debate é muito importante para reforçar as ações de conscientização, prevenção, orientação no combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. O crime contra os vulneráveis, em sua maioria, é cometido por pessoas conhecidas da vítima. Por isso, a importância de estarmos atentos e dispostos para fazer denúncias no enfrentamento do problema. Quero buscar o fortalecimento dos programas de ações em âmbito nacional na promoção de debates, simpósios, seminários e outros eventos relacionados no intuito de aumentar a percepção de toda a sociedade na identificação do abuso sexual infantil,” afirmou o Professor Joziel.
Para Somaine Cerruti, é muito importante não aceitar relativizações do que seja um  crime. “Crime é conduta sempre grave, senão seria ilícito cível. Assim, quem tem fotos com características de pedofilia não pode imaginar que seu delito seja menos importante do que daquele que praticou a violência. Sem a demanda, não haveria tanta oferta e não seriam tantas as crianças abusadas no mundo inteiro” analisou, acrescentando que, no Brasil, os números são alarmantes e põem em cheque a infância de nossas crianças. “Precisamos unir todos os atores públicos com a própria sociedade civil no enfrentamento dessas condutas”, observou a promotora.
Dados do Ministério da Saúde mostram que 58.074 crianças foram vítimas de abuso sexual no Brasil, entre 2011 e 2017. Deste total, 43.034 (74,2%) eram meninas e 14.996 (25,8%), meninos. Vítimas entre 1 e 5 anos correspondem a  51,2% do total. O país ocupa hoje o 11º lugar no ranking mundial de casos dessa natureza. O mais alarmante é que mais de 80% dos casos são cometidos por pessoas próximas das vítimas, como familiares. E aí, um outro problema: a subnotificação dificulta a atuação do Estado.
 O Professor Joziel também  é o autor do Projeto de Lei nº 2828/2019, que institui a campanha ‘Maio Laranja’ em todo o território nacional, com o objetivo de reforçar as ações de conscientização, prevenção, orientação e combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes.
Segundo estudos psicanalíticos, há duas categorias de pedófilos: os que consomem pornografia infantil e os que a produzem, abusando sexualmente de crianças. “O prazer do pedófilo é se sentir onipotente diante da vítima, eles não têm empatia com as vítimas, que acabam sendo acusadas  por eles de os seduzir”.


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

COMO SE JÁ NÃO BASTASSE O GENOCÍDIO, SUICÍDIO ATINGE PROPORÇÕES ALARMANTES ENTRE OS JOVENS NEGROS

          
 Fonte: Carta Capital/Edição: Adilson Gonçalves 
Um dado alarmante ilustra a gravidade do racismo na sociedade brasileira: a cada dez jovens (de 10 a 29 anos) que cometem suicídio, seis são autodeclarados negros. O levantamento, do Ministério da Saúde (MS), revela não somente uma disparidade racial, como também a necessidade de políticas públicas mais eficientes para a população negra.
A cartilha Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros, lançada pelo MS, mostra que entre 2012 e 2016 o número de casos com pessoas brancas permaneceu estável, enquanto o das negras aumentou 12%. “É curioso saber que esse aumento acontece em um contexto que nos leva a pensar em quais formas a população negra tem se organizado diante do racismo”, contesta a psicóloga Mônica Gonçalves, que estuda relações raciais e atua no campo de pesquisa da Saúde Pública. Para ela, o racismo é uma condição social que unifica todos os negros e, por isso, não seria possível saná-lo com uma única política reparatória, o que torna necessária a articulação de diferentes ações interseccionais.
A psicóloga conta que durante os quatro anos e meio em que trabalhou no Sistema Único de Saúde (SUS) atendeu inúmeras pessoas pretas, mas apenas uma delas tocou no assunto racismo: uma pré-adolescente que sentia vergonha da cor da pele, do cabelo e sofria bullying na escola. A explicação para tal silêncio não significa, segundo Gonçalves, a isenção da opressão nas vidas destas pessoas, e sim uma divergência de classes influente nos métodos de combate ao sofrimento. Ela explica dizendo que quando trabalha em clínicas costuma receber muitas queixas de racismo, “muitos já vêm por um endereçamento, sabendo que sou negra e estudo o assunto”.

Instituída em 2009, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra visa garantir a equidade e a efetivação do direito à saúde de negras e negros. Contudo, ela ainda é pouco aplicada nos equipamentos de saúde do Estado. Prova disto é que, segundo um levantamento da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, somente 57 municípios brasileiros, dentre os mais de 5 mil existentes no país, a colocaram em prática. “É uma política importante, de caráter reparatório que reconhece o racismo institucional. Por ser integral significa que ela deveria ser implementada em todas as esferas das instâncias do SUS, desde a atenção primária até a alta complexidade.”, defende Gonçalves.
O Ministério da Saúde mostra que em 2016 o risco de um jovem negro cometer suicídio foi de 45%. O número, demasiadamente alto, pode ser ainda maior. O professor e psicólogo Paulo Navasconi relembra que os dados são muitas vezes subnotificados e que alguns estudos estimam o triplo das quantidades divulgadas.
Navasconi é autor do livro “Vida, Adoecimento e Suicídio”, que aborda a negligência da literatura científica quanto à interseccionalidade dos marcadores de raça, classe e gênero, e os efeitos político-científicos desse silenciamento. A obra aborda, através de uma perspectiva da psicologia, conceitos como epistemicídio, colonialidade do saber, dispositivo de racialidade, racismo epistêmico, branquitude e heteronormatividade
“ Quando os negros não são mortos pela mão do estado, são mortos na mão de uma sociedade deliberadamente racista. O racismo estrutural é um determinante de saúde e direitos.”, afirma o autor.
Pesquisas recentes vêm apontando que o suicídio é uma prática multifatorial, isto é, acontece por questões econômicas, sociais, biológicas e culturais. “Por que não enxergamos a raça como um determinante de saúde? O racismo afirma e reafirma que corpos negros são inferiores, feios e incapazes. É como aquela frase ‘eu me faço a partir do olhar do outro’, de que modo esse outro me olha?”, questiona Navasconi.

NÚMEROS DESIGUAIS

A desigualdade racial é evidenciada em diferentes pesquisas e estudos científicos, sendo possível identificá-la em todos os campos sociais, culturais e econômicos. Tomemos como exemplo alguns dados:
·                                 O  terceiro trimestre de 2018 registrou a taxa de desemprego maior entre pessoas pardas (13,8%) e pretas (14,6%).(Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD).
·                                  No quarto trimestre de 2018, as pessoas que se declararam brancas tiveram rendimento mensal médio de R$ 5.416, já os os pardos de R$ 2.467 e os negros de R$ 1.746. (Fonte: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD).
·                                 A taxa de analfabetismo entre pretos e pardos em 2017  foi 9,9%, enquanto a de brancos foi menos que a metade (4,2). (Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE).
·                                 A cada quatro pessoas assassinadas pela polícia no Brasil, três são negras, o que representa 76,2% do total. (Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública)

O SUICÍDIO


Na tentativa de romper com sofrimentos, sobretudo mentais, muitas pessoas acabam com a própria vida. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 800 mil suicídios acontecem por ano e essa é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. Navasconi acredita que para solucionar esta questão é preciso, principalmente, falar sobre projeto de vida. “Penso que nas estratégias mais práticas precisamos de ações nas escolas, nos programas de saúde e monitoramento da efetivação das ações”, defende. 
O Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma associação civil sem fins lucrativos que trabalha com a prevenção do suicídio. Qualquer pessoa pode conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Os voluntários recebem treinamento e não precisam ter formação em psicologia.


quinta-feira, 12 de setembro de 2019

ALERJ DISCUTE PROJETO DE LEI QUE MODIFICA COMPOSIÇÃO DO FÓRUM DE MULHERES NEGRAS NA CASA


Fonte: Ascom Alerj/Edição:Adilson Gonçalves 
A composição do Fórum Permanente de Diálogo com as Mulheres Negras da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) poderá ser alterada. A determinação é do projeto de resolução 90/19, do deputado Waldeck Carneiro (PT), que a Alerj vota nesta quinta-feira (12/09), em discussão única.  Segundo a proposta, o fórum deverá ser composto pelos presidentes ou integrantes efetivos designados das Comissões de Defesa dos Direitos da Mulher, de Direitos Humanos e de Combate às Discriminações da Alerj. Também deverão compor o fórum seis mulheres representantes da sociedade civil, indicadas por entidades ou coletivos do movimento de mulheres negras.
  A Coordenação Colegiada será composta com base no princípio da paridade entre deputados estaduais e representantes do movimento de mulheres negras do Estado do Rio de Janeiro. A proposta altera a Resolução 396/17, que instituiu o Fórum de Mulheres Negra na Alerj.
  O novo projeto aumento de cinco para seis o número de mulheres representantes da sociedade civil no colegiado, além de incluir um integrante da Comissão de Direitos Humanos no fórum.



sexta-feira, 6 de setembro de 2019

GOVERNADOR WILSON WITZEL SANCIONA LEI DO DEPUTADO CARLOS MINC QUE ATUALIZA PENALIZAÇÕES ÀS PRÁTICAS DE DISCRIMINAÇÕES NO ESTADO DO RJ

Fonte: Alerj/ Edição: Adilson Gonçalves
A Lei 6.483/13 que determina sanções às práticas de discriminações foi atualizada e passou a seguir o Estatuto da Igualdade Racial (Lei Federal 12.288/10). A mudança foi estabelecida pela Lei 8515/19, sancionada pelo governador do Rio, Wilson Witzel, e publicada no Diário Oficial do Executivo, nesta sexta-feira (06/09).
No entanto, o governador vetou o artigo que previa a advertência e a perda de benefícios como acesso a créditos estaduais. Outra parte vetada foi a imposição do pagamento de multas cujos valores poderiam ir de mil a dez mil UFIR-RJ (de R$ 3,4 mil a R$ 34 mil, aproximadamente). A antiga legislação determinava multa de, no máximo, três mil UFIR-RJ, equivalente a R$ 10 mil. Agentes públicos ou militares, no exercício de suas funções, também poderiam ter penalidades disciplinares aplicadas, porém a determinação também foi vetada. Assim como a definição de que o valor da multa seria fixado tendo em vista as condições pessoais e econômicas do infrator, podendo ser elevada até o triplo, dependendo da condição financeira de quem cometeu o crime.

A legislação em vigor já prevê outras sanções, como a suspensão do funcionamento do estabelecimento ou instituição que discriminar ou permitir o ato de racismo por trinta dias. Além desta punição, o novo texto também previa, inclusive, a interdição dos estabelecimentos em caso da reincidência de atos de racismo, mas esse trecho também foi vetado.
A norma não valerá para as instituições religiosas, templos religiosos, locais de culto e outras instituições religiosas. "Esse projeto foi uma demanda dos movimentos sociais levada à Comissão de Combate às Discriminações da Alerj. Eu tenho consciência de que o racismo não acaba por lei, que deva ser uma mudança de cultura, por isso é necessário fazer o cumpra-se e fiscalizar a aplicação desta norma, além de realizar a conscientização nos estabelecimentos comerciais. O objetivo não é arrecadar dinheiro de multa, mas mudar o comportamento discriminatório", afirmou o autor do texto deputado, Carlos Minc (PSB).

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

ALERJ ABRE EXPOSIÇÃO ‘OJÚ OLHOS’ SOBRE COMUNIDADES QUILOMBOLAS EM SEU SALÃO NOBRE


Texto: Líbia Vignoli (Ascom Alerj)
Fotos:Thiago Lontra
Edição: Adilson Gonçalves

Santa Rosa e Cecilliano, ao centro.
O salão nobre da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) foi palco, nesta segunda-feira (02/09), do lançamento da exposição fotográfica ‘Ojú Olhos’, que retrata a vida das comunidades quilombolas existentes no Estado do Rio de Janeiro, comparando-as aos quilombos africanos. A mostra está aberta gratuitamente ao público e poderá ser vista até o dia 08 de setembro, sempre a partir das 10h, no Palácio Tiradentes.
Raimundo Santa Rosa, fotógrafo responsável pela mostra, foi homenageado com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria concedida pela Alerj. Ele é um dos fundadores dos Afoxés Agbara Dudu e Alafim Aiyê, que mantêm a tradição da cultura negra há quase 50 anos, sempre pautado na defesa das raízes africanas.
“A melhor forma de retratar um fato é cristalizando através de uma imagem. Uma única fotografia dessas, por exemplo, nos traz inúmeras informações. Quando visitei os quilombos, vi a chance de apresentar uma vasta contribuição para a nossa história. Muitas pessoas sequer sabiam da existência de quilombos no Estado do Rio”, contou Santa Rosa ao falar sobre a iniciativa de produzir essa mostra.
Sobre a condecoração recebida, o fotógrafo se mostrou emocionado. “Só tenho a agradecer à deputada Tia Ju pela homenagem”, disse, referindo à parlamentar autora da concessão da honraria.

Matriarca quilombola


Dona Tetê, musa
Dona Tetê, matriarca há mais de 40 anos do Quilombo São José da Serra, na Região Sul Fluminense do Rio de Janeiro, foi uma das modelos de Santa Rosa durante sua visita à comunidade. Acompanhada de suas filhas, ela compareceu à solenidade de lançamento da exposição e se mostrou bastante emocionada em ver seu povo registrado.
“A primeira casa que Santa Rosa visitou foi a minha. Senti como se fosse um filho da terra. Ele chegou ao quilombo à tarde, jantou comigo, e vi nele uma pessoa de bem. Sabia que nosso povo seria representado de forma tão bonita”, contou Dona Tetê orgulhosa de sua gente.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

YARA E YACY SÁ, IRMÃS GÊMEAS: DE ORIUNDAS DE UM QUILOMBO NO MARANHÃO, PARA A CAPA DE MARIE CLAIRE E O MUNDO


Fonte: Revista Marie Clair/
 Edição: Adilson Gonçalves

As aparências enganam no caso das gêmeas Yacy e Yara Sá.
Embora idênticas fisicamente, têm personalidades bem distintas.
Yacy é desinibida, nutricionista por formação e se emociona ao falar
da mãe; Yara é mais tímida, se dá bem em exatas e é formada em
Ciência da Computação pela Universidade Federal do Maranhão, a
mesma da irmã. “Crescemos com a responsabilidade de ser a
geração da família a se formar na faculdade”, explica Yara.
Filhas da agente penitenciária – e costureira nas horas vagas –
Maria Santana, as duas nasceram em São Luís, capital do estado.
A cerca de 200 quilômetros dali fica Viana, cidade natal de Maria,
que abriga comunidades quilombolas em sua extensão. “Nosso avô
materno era carroceiro e nossa avó tinha a hortinha dela em casa, e
ajudava vendendo as verduras e os legumes que plantava. Minha
mãe teve uma infância bem pobre. Parte da área onde nasceu e se
criou é remanescente de quilombos, por isso temos características
físicas tão fortes, como nossa cor e feições”, conta Yacy.
Foi quando mudou-se para a capital, já adulta e mãe de seu
primeiro filho, que Maria conheceu o pai das meninas, um eletricista
industrial. Casaram-se e tiveram três filhas: a irmã do meio, hoje
com 35 anos, e as gêmeas, de 33. “Nosso pai não se fixava em São
Luís: viajava, quando uma empresa o admitia, para o Pará, para
Recife, e assim foi rodando o Brasil. Por um tempo, mandava
notícias e visitava a gente nas férias, mas depois ficava mais de um
ano sem vir nos ver e não ajudava financeiramente. Nossa mãe era
mãe e pai também, deu duro para nos criar e dar tudo o que
tivemos”, lembra Yacy.
"Quando adolescentes, víamos as modelos nas revistas e não nos identificávamos. Não enxergávamos nossa beleza”"
Yara Sá
Na infância, a rotina da mãe que trabalhava três dias da semana
como costureira, as influenciou a gostar de moda. “Pra gente,
aquele era o momento de estar perto dela, de fazer as coisas junto.
Crescemos folheando revistas, aprendemos a cortar molde de
roupa, arrematar tecido, abrir costura... Tudo para tornar o trabalho
dela um pouco menos cansativo.” Daí a decidirem seguir a carreira,
porém, foram muitos anos e um longo processo de autoaceitação.
“Quando adolescentes, a gente via as modelos nas revistas e nos
comerciais e não se identificava. Tinha aNaomi [Campbell], mas
ela tem aquele padrão europeu, cabelo alisado. Não enxergávamos
beleza na gente. Por isso seguimos o caminho mais seguro: estudar
muito, fazer faculdade, ter um emprego formal”, explica Yara.
Em 2017, de tanto ouvirem das pessoas que deveriam ser modelos
e de verem uma mudança na indústria, Yacy conta que decidiram

investir na carreira e procurar uma agência – depois dos 30, o que é
uma exceção muito bem-vinda no mercado. “Começamos a
perceber que a moda e a beleza estavam se diversificando e
pensamos: ‘será que agora vão aceitar a gente?’. Nos últimos dez
anos, quando mais mulheres negras passaram a ser protagonistas
nessa área, passamos a nos notar, nos achar bonitas e até usar
nosso cabelo natural”, completa Yara.



"Por sermos negras, tínhamos que mostrar nossa competência o tempo todo para não sermos humilhadas pelas pessoas”"

Yacy Sá
A partir daí, o processo evoluiu como o da maioria das new faces:
foram para São Paulo, assinaram contrato com uma agência,
voltaram para São Luís para produzir material fotográfico enquanto
aguardavam trabalhos e mudaram-se definitivamente para a capital
paulistana no segundo semestre de 2018. No fim do ano, um
presente para a mãe: estamparam o primeiro editorial de moda para
uma revista, justamente aqui na Marie Claire. “Nossa mãe ia toda
semana na banca perguntar se tinha chegado a revista. Ela a
carregava na bolsa para cima e para baixo, mostrava para todo
mundo e falava que eram as filhas dela, cheia de orgulho”, conta
Yara. “A gente não tinha noção de que ainda podia realizar esse
sonho, chegar aonde chegamos”, diz Yacy.

Questão de idade

“Na indústria da moda, infelizmente, a beleza que se vende é a
beleza jovem. Tem gente que diz que a carreira acabou pra gente,
que vamos ficar só nisso, que já passou o momento de
‘acontecermos’ e, por isso, não vamos muito longe. Já aconteceu
de ‘amigos’ que fizemos nesse meio se afastarem quando
descobriram nossa idade. Parece que criaram uma expectativa de
sermos top models internacionais e poderem dizer que são nossos
amigos, mas se frustraram. Quem leva isso numa boa são outras
modelos, nossas amigas”, diz Yara. “Nossa aparência é
incompatível com a nossa idade, sabemos. Tanto que, na agência,
ficaram surpresos com essa questão, não sabem como lidar com
isso até hoje. Mas para sonhar não tem idade. Você pode sonhar
enquanto viver, e viver para tentar realizar”, completa Yacy.


Resistência materna

“Nossa mãe sempre nos ensinou que, por sermos negras, tínhamos
que mostrar nossa competência o tempo todo. Tínhamos que
estudar e adquirir conhecimento para não sermos humilhadas pelas

pessoas, nos provando a todo momento. No serviço, ela costurava
as próprias roupas, sempre impecáveis. Os amigos de trabalho a
chamavam de ‘nos trinques’, porque ela sempre estava belíssima.
Ela conta que, na época, não existia farda para agentes
penitenciários nem uniforme para presidiários e, no Maranhão, a
maior parte da população carcerária é de preto e pobre. Um dia,
quando foi escoltar uma detenta num julgamento, o juiz, branco,
olhou e perguntou: ‘Quem é a presa?’. Isso a marcou muito, ela
morria de medo de ser confundida só por ser negra. Por isso
sempre orientou a nos vestirmos bem, falarmos bem”, diz Yacy.

"Pretinhas calçadas"

“A gente estudou em escola e faculdade públicas, tivemos uma
infância pobre. Tentávamos de todas as maneiras ajudar em casa,
economizando, trabalhando desde cedo. Nossos avós maternos
criaram os filhos numa situação de precariedade. Minha mãe conta
que, às vezes, não tinham o que comer, só arroz com farinha.
Mesmo assim, nosso avô trabalhava duro o ano inteiro para poder
comprar sapatos para os filhos no final, ver ‘todos os pretos
calçadinhos’, como ele dizia. Isso porque, na época da escravidão,
o que diferenciava o negro livre do negro escravo era se tinham
sapato ou não, e aquilo era muito forte para ela. Tanto que, na
nossa infância, a gente viu mamãe comprar muitos sapatos,
tínhamos vários. Ela se preocupava com isso e dizia: ‘As minhas
pretinhas estão calçadas, não são pretas descalças’”, conta Yacy.

Sobre representatividade

“Nós somos feministas. Passamos a conhecer mais sobre o
movimento nos últimos cinco anos, quando vimos que mulheres
negras estavam falando mais sobre isso. A Djamila [Ribeiro] é
uma referência. A Chimamanda [Ngozi Adichie]... Ela escreve tão
bem, fala de dores comuns a nós, negros. Entendemos a
importância de buscar nossa ancestralidade, ter respeito pelas
nossas origens, ser conscientes da nossa cor. E a Michelle
Obama também. Mesmo não sendo no Brasil, a gente ficou na
maior empolgação de ver uma família negra na presidência. A
Michelle tem sabedoria, elegância, beleza. A assistíamos e
pensávamos: ‘Nossa, é possível ter tudo isso e ser negra?’. É
incrível enxergar, por elas, onde podemos chegar. Na moda,

olhamos para Adut Akech, Maria Borges, Jeneil Williams. Elas

são nossas inspirações”, diz Yara.