quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Da estratégia de caramujo de Machado de Assis ao racismo estrutural: black money e a imprensa de resistência

 Texto: Fabrício César de Oliveira Fonte: Observatório de Imprensa
Edição: Adilson Gonçalves
A técnica jornalística, a atitude e a escrita de Machado de Assis são reconhecidas por todos da área, mas poucos sabem de sua “estratégia de caramujo” enquanto homem negro em uma sociedade sem democracia racial. O trabalho de tipógrafo, revisor, crítico teatral e cronista nos jornais do século XIX deram a Joaquim Maria Machado de Assis segurança e tempo para exercer o que mais gostava: escrever com criticidade. No entanto, tudo isso não apaga sua origem negra (pai e avós paternos), sua negritude e sua luta antirracismo. Sendo o modo como escreve, o lugar de onde fotografa com palavras a realidade (realismo machadiano) e a escolha estratégica de vida as fontes de toda sua genialidade. Tal genialidade não é a que devemos cobrar dos nossos jornalistas atuais, porém não podemos tolerar deles, ainda mais de homens brancos, atitudes racistas como a do âncora do Bom Dia São Paulo, Rodrigo Bocardi, na última sexta feira (07).
A “estratégia de caramujo” – adotada e declarada, aos leitores atentos, em uma crônica da semana de 13 de maio de 1893 (cinco anos depois da abolição da escravatura) – mostra um escritor negro que escolhe andar pelas frestas, pelas ambiguidades das relações sociais da burguesia brasileira; e não mudou muito o modo como o racismo no Brasil é velado, mas existente. Machado de Assis escolhe ser “o mais encolhido dos caramujos” (como retratam os críticos Eduardo de Assis Duarte e Lilia Moritz Schwarcz, em seus respectivos estudos), pois, em sociedades pré-abolição e pós-abolição vividas pelo “bruxo do Cosme Velho”, a estratégia de escrever sobre a podridão burguesa por dentro da própria burguesia é marca de um gênio que criou representações como Brás Cubas, Bentinho, Capitu, o agregado José Dias, Rubião, Quincas Borba, Cândido Neves, Tia Mônica, os Pádua, entre outros tantos personagens de uma época mergulhada em uma ideologia de consumo burguês, eurocêntrico e branco.
Machado denunciava o sistema de dentro. A “estratégia de caramujo” de Machado é, portanto, uma singularidade de um gênio produzida por nossas maiores chagas: a escravidão e o racismo, velado ou não. Contudo, Joaquim Maria não se dobraria ao ambiente, mas sim criaria uma casca, um casulo protetor, como o de um caramujo, de onde poderia mover-se lentamente, por letras, por palavras, poderia fazer suas críticas, deixando um rastro no chão, quase imperceptível para quem tinha olhos distraídos; mas bastaria olhar mais de fora, por uma espécie de exotopia, para ver claramente a estratégia de um “bruxo caramujo” e seu rastro, como podemos agora ver, ler e nos deliciar. Logo, a “estratégia de caramujo” declarada pelo autor foi seu modo de denunciar o racismo em suas entranhas mais perversas, inconscientes e veladas. Racismo tão agudo e estrutural que tentou embranquecê-lo em fotos em campanhas publicitárias e em livros, ao longo das décadas. A “estratégia de caramujo” é, portanto, mais uma forma de denúncia machadiana à podridão burguesa e, principalmente, ao racismo.
Passados mais de 110 anos da morte (1908) do mestre e escritor negro, Machado de Assis, e mais de 130 anos da abolição da escravatura (1888), o racismo ainda é nossa maior marca de desigualdade na sociedade mais desigual do mundo, segundo último relatório do PNUD/ONU de 2019. Embora sejamos, 54% da população, movimentemos mais de R$ 1,71 trilhões anualmente e sejamos 51% dos empreendedores, 75% dos negros estão nos 10% mais pobres e ainda é gritante a diferença média de 40% a menos no salário dos negros em relação aos brancos; além disso, a cada 23 minutos um negro é assassinado no país, em uma proporção quase quatro vezes maior do que o risco corrido pelos brancos. Mais assustador ainda é saber que 80% dos mortos por policiais no Rio de Janeiro, em 2019, eram nossos negros. São dados de um sintoma, são dados de uma patologia social vinculada à desigualdade: o racismo estrutural.
Não é preciso ir muito longe no tempo e no espaço para termos outro exemplo de racismo estrutural. Rodrigo Bocardi, jornalista da Globo, ao se justificar no Twitter, na sexta-feira (07), dizendo que alguém com a origem dele não pode ser racista, dá abertura para que o próprio autoelogio seja uma atitude racista: “Alguém como eu não pode ter preconceito. Eu não tenho. Nunca tive. Nunca terei”.
Mas o que houve para o apresentador ir até o Twitter? Na sexta, em reportagem sobre mobilidade urbana, um dos maiores problemas da cidade de São Paulo, um jovem negro com camiseta esportiva de um clube de elite foi entrevistado pelo repórter de rua da Globo. Na tentativa de fazer um diálogo amistoso entre o estúdio e o entrevistado, o âncora fez uma indagação fora do contexto da reportagem, perguntando se ele era pegador de bolinhas no Clube Pinheiros. Uma pergunta impregnada de senso comum e estereotipagem. A resposta do jovem Leonel, negro entrevistado, foi um misto de desapontamento e assertividade no olhar e na voz: “Não, não, não. Sou atleta do Pinheiros. Jogo polo aquático”. Depois disso e da desconstrução do estereótipo contido na pergunta do âncora, veio uma enxurrada de críticas ao apresentador, ao vivo e pelas mensagens das redes interativas. A saída encontrada pelo jornalista, branco, foi dada no Twitter. Muitos veem preconceito na pergunta de Bocardi; outros, nem tanto. Mas o que não se pode negar é a existência do racismo, nem se pode dizer de forma categórica, dogmática e axiomática que “Nunca tive. Nunca terei (atitude preconceituosa)”, pois afirmar de tal forma já é um ato de falta de um questionamento mais profundo, histórico e honesto.
Por outro lado: as saídas, a inclusão e o jornalismo preto
Não vivemos mais nos tempos machadianos: o jornalismo mudou, pois a sociedade está em transformação. As denúncias que outrora eram veladas, em invólucros de escritor caramujo, agora estão mais evidentes, pois é assim que revelamos os sintomas e podemos tratá-los coletivamente. Não escondendo a ferida, que poderá virar tumor, mas pedindo ajuda ou mesmo apontando o dedo para ela. Está sendo assim que o jornalismo dessa segunda década do século XXI no Brasil vem se manifestando: pela voz de quem tem sua singularidade e existência colocadas em xeque por questões patológicas e pseudocientíficas ainda do século XIX. Está sendo assim que o jornalismo preto vem cada vez mais aparecendo (e deve), seja no Alma Preta Jornalismo e no Letra Preta, da revista piauí, ou por influências fortes de grupos de estudos nas universidades, como o Geledés, organizado e coordenado por mulheres negras, como a filósofa e doutora em educação Sueli Carneiro, ou por forte atuação de grupos, hubs e startups como o Black Money, fundado em 2017, que tem na liderança uma brasileira negra, chamada Nina Silva, eleita pela revista Forbes uma das mulheres mais poderosas do Brasil e que ficou entre as 100 figuras afrodescendentes mais influentes com menos de 40 anos no ranking da Most Influential People of Africa Descent, instituição ligada à Organização das Nações Unidas (ONU). O Black Money prioriza o consumo entre os negros fazendo circular capital entre eles; a ideia é dar autonomia à comunidade negra na era digital e fortalecer o ecossistema de negócios geridos por essa população. É esta, portanto, a ideia mais objetiva, segundo alguns articuladores, de enfrentamento ao racismo estrutural no Brasil, pois ataca a raiz do problema: o capital burguês, que aos poucos vai ganhando cor, melanina e aspectos de democracia, realmente liberal e racial. Une, portanto, a luta contra o racismo a uma luta de inclusão ao sistema.
Machado de Assis não errou em nada. Não podemos acusá-lo, anacronicamente, de não ter feito jornalismo preto nem abolicionista; por isso, não errou. Fez de seu modo uma denúncia antirracista e profundamente antissistêmica. Exímio que era, mostrou-nos, e mostra sempre, quais os problemas da alma burguesa, quais seus defeitos, sua podridão de comportamento, suas patologias e jogos sociais. Mostrou-nos como um caramujo-escritor, deixando o rastro na terra, deixando o rastro em palavras e crítica, fez seu sinal de alertar sobre a sociedade que se apoia em pseudociências (como o racismo). Genial, Machado ironizou seu tempo e os modos de vida que o circundavam. Em outra perspectiva, o Black Money nos mostra como usar de estratégias do sistema os modos de modificar o próprio sistema pela inclusão do negro. É uma saída. Uma outra saída. Antirracista, mas não antissistêmica.
Mais de um século depois, não há como ser jornalista, escritor, brasileiro, da mesma forma, sem denunciar e sem ler os rastros que o “bruxo do Cosme Velho” tanto fez questão que nós lêssemos com o passar do tempo. E nem há saída à sociedade sem jornalismo preto e a força de movimentos como o Black Money. Muito menos há como seguir fazendo jornalismo, sendo homem branco, sem sair do seu lugar de privilégio ou sequer parar para se desculpar com os que ofendeu, como ainda não fez Rodrigo Bocardi na TV, embora já tenha pedido desculpas para o público seleto e mais crítico do Twitter. É hora da escuta! Foi-se o tempo da “estratégia de caramujo”, mas sempre será tempo de Machado de Assis!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

STJ SUSPENDE LIMINAR E SÉRGIO CAMARGO RETORNA À PRESIDÊNCIA DA FUNDAÇÃO PALMARES

 Fonte: O  Globo Edição: Adilson Gonçalves
BRASÍLIA — O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, derrubou nesta quarta-feira decisão que suspendeu a nomeação de Sérgio Camargo para a presidência da Fundação Palmares. Noronha acatou um recurso da Advocacia-Geral da União (AGU). Com a decisão, a expectativa é a de que Camargo seja imediatamente reconduzido ao cargo. Procurada por meio de sua assessoria, a nova secretária especial da Cultura, Regina Duarte, respondeu apenas que "decisão judicial cumpre-se".
“Caiu a liminar que me afastou da Fundação Cultural Palmares. Serei reconduzido ao cargo. Grande dia”, postou Camargo nas redes sociais.
Ex-aliada: Demitida por Regina Duarte, reverenda Jane tentou emplacar presidente afastado da Fundação Palmares
Ele foi nomeado pelo ex-secretário da Cultura Roberto Alvim. Em dezembro, a Justiça do Ceará acatou uma ação civil que pedia a suspensão de Camargo.
A decisão foi tomada a pedido do advogado Hélio de Sousa Costa, em uma ação popular. Segundo ele, houve desvirtuamento na nomeação, porque as declarações de Camargo nas redes sociais seriam incompatíveis com o papel do órgão para o qual foi escolhido.
O juiz concordou que houve “excessos” nas postagens de Camargo em redes sociais. Guerra fez um resumo das declarações – que, para ele, contém termos “em frontal ataque as minorias cuja defesa, diga-se, é razão de existir da instituição que por ele é presidida”.
Entre as postagens listadas no processo, Camargo se referiu à ativista americana Angela Davis como “comunista e mocreia assustadora”. Também declarou que nada ter a ver com “a África, seus costumes e religião”. Sugeriu entrega de medalha a “branco que meter um preto militante na cadeia por crime de racismo”. Disse que “é preciso que Mariele morra. Só assim ela deixará de encher o saco”. E, por fim, afirmou que “Se você é africano e acha que o Brasil é racista, a porta da rua é serventia da casa”. Os comentários foram revelados pelo GLOBO.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OAB E FEDERAÇÃO DE FUTEBOL DO MATO GROSSO INICIAM CAMPANHA CONTRA O RACISMO E HOMOFOBIA NO CAMPEONATO MATOGROSSENSE

Fonte: O Bom da Notícia Edição: Adilson Gonçalves
O Campeonato Matogrossense Martinello Sicredi 2020 chegou a mais uma rodada neste final de semana com um novo reforço: a parceria entre a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT) e a Federação Matogrossense de Futebol (FMF) para conscientizar os torcedores a entrar em campo na disputa contra o racismo e a homofobia dentro e fora dos estádios.
Uma das grandes paixões brasileiras, o futebol mexe com as emoções do torcedor que, entre músicas e xingamentos, vibra com cada lance do seu time. Mas, para ver o clube do coração levar a melhor, é indispensável respeitar as regras e a lei.
Criticar o árbitro, os jogadores e torcedores adversários com ofensas às suas características étnico-raciais, de orientação sexual ou de identidade de gênero, além de poder custar três pontos ao time, constituem crime.
“Não existe mais espaço na sociedade para tolerar qualquer tipo de discriminação. Injúria racial, racismo, homotransfobia são crimes e, dentro dos estádios não pode ser diferente, pelo contrário, um espaço onde devemos desfrutar de bons momentos com nossos filhos e torcer pelo time do coração deve ser cercado pelo respeito”, destacou o presidente da OAB-MT, Leonardo Campos.
Por meio de suas comissões da Diversidade Sexual, de Defesa da Igualdade Racial e de Esportes, a OAB-MT se coloca como aliada da sociedade para combater o racismo e a homotransfobia.
“Essa é uma campanha extremamente importante, futebol é entretenimento, local para receber famílias, e não podemos ver qualquer tipo de discriminação dentro dos estádios”, ressaltou o presidente da FMF, Aron Dresch.
Em 2019, foram registradas em Mato Grosso 139 ocorrências com motivação homofóbica e 169 relacionadas a racismo, preconceito e discriminação racial, conforme os dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp).
“Estes são números que não podemos ver crescer no Estado e, muito menos, nos estádios. O que o mato-grossense merece ver são números cada vez maiores de gols e belas defesas”, finalizou Leonardo Campos.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

CPI DOS INCÊNDIOS DA ALERJ VAI CONVOCAR PRESIDENTE DO FLAMENGO PARA DAR ESCLARECIMENTOS SOBRE TRAGÉDIA NO CLUBE


Fonte: Alerj Edição: Adilson Gonçalves
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) que investiga os recorrentes incêndios no Estado vai convocar o presidente do Clube de Regatas do Flamengo, Rodolfo Landim, para prestar esclarecimentos ao grupo sobre o incêndio do Ninho de Urubu, que há um ano vitimou 10 atletas da base do time. Segundo o presidente da CPI, deputado Alexandre Knoploch (PSL), caso o presidente não compareça ou não envie como representante o vice-presidente jurídico do clube, Rodrigo Dunshee – o novo encontro já está marcado para o dia 14/02 -, Landim poderá ser conduzido coercitivamente. A deliberação aconteceu nesta sexta-feira (07/02) durante reunião da CPI que teve quase seis horas de duração.
Knoploch afirmou que também será convocado, com possibilidade de condução coercitiva, o ex-vice-presidente de patrimônio Alexandre Wrobel. Tanto Wrobel quanto Landim foram convidados a participar da reunião desta sexta-feira, mas não compareceram. "Se eles não estiverem presentes ao primeiro minuto da próxima reunião, serão alvos de condução coercitiva imediata pela Polícia Civil. Estamos cumprindo o que determina a justiça. Primeiro convidamos esses dirigentes, agora eles serão convocados. Esperamos não ter que usar a condução coercitiva, já que o advogado do Flamengo informou que eles virão à reunião", afirmou o parlamentar.

Famílias das vítimas

Após um ano do incêndio no alojamento das divisões de base do Flamengo,
onde 10 meninos morreram e três ficaram feridos, familiares e advogados das vítimas presentes à reunião reclamaram da falta de acolhimento por parte do Flamengo. O clube chegou a acordos de indenização com apenas três famílias. Segundo Wedson Candido de Matos, pai de Pablo Henrique – uma das vítimas -, ele ficou sabendo da tragédia pela mídia e o clube não prestou nenhuma tipo de atendimento. "Nesse um ano não tivemos quase nenhum contato com o Flamengo. Total desprezo. O Flamengo nos abandonou. Não procura, não conversa. Não tive atendimento psicológico, não tive nenhum tipo de atenção. Apenas pagam a pensão, que é a conta de comprar os remédios que eu e minha esposa passamos a tomar depois da tragédia”, revelou Wedson.
Advogada da família de Pablo Henrique, Mariju Maciel disse que o que se pede é acolhimento e carinho. "Ainda não tivemos acesso aos autos do processo e estamos há um ano enfrentando o descaso. O que queremos é ouvir do Flamengo 'desculpa por ter colocado seu filho para dormir num container de alta combustão'. O Flamengo só me procurou uma vez estipulando um teto de indenização e não querendo dialogar. Todas as famílias tinham aceitado o acordo feito em conjunto pelo Ministério Público, Ministério Público do Trabalho e Defensoria Pública. O clube é que não aceitou e preferiu tratar com cada família individualmente", disse.
Segundo Mariju, a família de Pablo veio de Minhas Gerais para a reunião e pediu, por e-mail, ao clube a liberação para visitar o Ninho do Urubu na manhã deste sábado (08/02), quando completa exatamente um ano da tragédia, para colocar uma vela onde o adolescente morreu. Inicialmente a diretoria do Flamengo havia negado o pedido, informando que o time principal se concentraria para o jogo contra o Madureira pelo Campeonato Carioca. No entanto, durante a reunião, o CEO do clube, Reinaldo Belotti, chegou a um consenso e as famílias poderão visitar o CT sem a presença da imprensa.
O vice-presidente da CPI, deputado Rodrigo Amorim (PSL), disse que o
Flamengo está fugindo do debate. "A instituição usa a sua força para intimidar. Se nós parlamentares estamos enfrentando dificuldades em dialogar, imagina como está sendo para essas famílias", questionou Amorim. Representando a família do Jorge Eduardo, a advogada Paula Wolf, argumentou que o clube trata os advogados dos parentes das vítimas como entraves. "O Flamengo age como se as famílias não tivessem direitos. O presidente Landim diz que nós estamos atrapalhando as negociações, mas o clube não procura essas pessoas", lamentou.
Posição do Flamengo
O advogado do Flamengo, Willian Oliveira, pediu desculpas aos familiares presentes e disse que após o incêndio, o clube realizou todos os procedimentos legais para que o Centro de Treinamento (CT) pudesse voltar a funcionar. A nova gestão, segundo ele, constituiu um diretor para cuidar do CT. Com mais de três horas de reunião da CPI em andamento, o ex-presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, e o atual CEO do clube Belotti chegaram à Alerj.
Segundo Bandeira de Mello, único dirigente do clube indiciado inicialmente pela polícia, sua gestão havia acabado em 2018 e ele não era mais presidente do Flamengo em fevereiro de 2019. Ele negou todas as acusações e disse que não tinha acesso às informações de manutenção dos equipamentos e nem sobre as licenças e alvarás do Corpo de Bombeiros e da prefeitura. "Essas questões não chegam diretamente ao presidente do clube. Só soube dos problemas de alvará, das licenças e do pedido de interdição do CT pela prefeitura através da mídia e depois do incêndio", declarou. "Agora eu sou um torcedor. Fiquei seis anos na presidência e melhoramos todo o patrimônio e as finanças do clube. Quando eu sai de lá todos estavam vivos e com saúde", finalizou.
Já o CEO Belotti afirmou que o incêndio pode ter sido causado por possíveis problemas elétricos devido às chuvas que caíram na cidade do Rio dois dias antes da tragédia. "Foi uma das maiores tempestades registradas no ano passado. Soubemos de relatos de quedas de energia no CT, além de um ar-condicionado ter parado de funcionar. Esclareço que o aparelho foi reparado e não foi o mesmo que causou o incêndio. Além disso, os jovens estavam eufóricos com um treino e há relatos de que foram dormir mais tarde naquele dia, o que pode ter dificultado a saída deles do alojamento", disse.
Ele assegurou, ainda, que no Flamengo está tomando todas as providências possíveis. “Oferecemos ajuda e apoio médico aos 16 atletas sobreviventes, como auxílio psicológico. Quanto às vítimas fatais, sabemos que nenhum valor indenizatório vai ser o suficiente devido à perda dos jovens. Mas já fizemos acordo com três famílias e tem outro caso em que os país da vítima eram separados e um dos parentes também já aceitou um acordo com o clube", concluiu.
Participaram também da reunião da CPI os deputados Jorge Felippe Neto (PSD) e Renata Souza (PSOL)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

IMPRENSA NEGRA BRASILEIRA COMPLETA 183 ANOS E TEM NA MÍDIA DIGITAL SUA PROPULSÃO PARA MAIOR ALCANCE

Fonte: Observatório de Imprensa Edição: Adilson Gonçalves
No Brasil, a chegada da imprensa ocorreu em 1808, juntamente com a vinda da família real portuguesa. Após 25 anos, emerge então a chamada imprensa negra, que, em 2020, completa seus 187 anos – a publicação do primeiro periódico brasileiro protagonizado e direcionado para negros ocorreu em 1833, no Rio de Janeiro, com o jornal O Homem de Cor ou O Mulato.
Nos séculos XIX e XX, a imprensa negra discute intensamente a questão abolicionista, levanta-se contra o preconceito racial e é pautada na afirmação social da população negra. Os jornais e revistas da categoria eram, de modo geral, compostos por coletivos e grupos, que também utilizavam as mídias para divulgar eventos próprios da população negra. (Nestas primeiras décadas do século XXI, jornais e revistas negros continuam combativos e vigilantes, carregando bandeiras de integração e equidade racial dentro da sociedade brasileira, movimentada por mudanças governamentais e sociais.)
A partir de 1937, período do Estado Novo, o movimento midiático negro sofreu dificuldades e perseguições, enfraquecido no protagonismo em movimentos populares e extinto em partidos políticos.
O jornalismo negro recobrou o fôlego e voltou a organizar-se a partir de 1945, com a publicação do periódico Alvorada – organizado pela Associação dos Negros Brasileiros (ANB) e veículo principal da entidade – além de outros títulos, como O Novo Horizonte e Cruzada Cultural.
Já no período da ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985, o jornalismo negro e as próprias questões raciais sofreram impactos múltiplos, refletidos no sufocamento do debate sobre o preconceito, discriminação e desigualdade racial – veja o Arquivo de Memórias da Ditadura sobre a Comissão Nacional da Verdade e Negros para entender o contexto e a luta negra no período.


Em 1978, a prisão e morte sob circunstâncias suspeitas de Robson Silveira da Luz, feirante negro de São Paulo, culminou numa reunião de militantes que resultou na criação do Movimento Negro Unificado (MNU). Em 7 julho, mais de 3 mil pessoas se reuniram em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, movimento que daria origem ao Dia Nacional de Luta Contra o Racismo.
A imprensa no Brasil hoje

A existência de uma imprensa negra no Brasil é fundamental em termos de representatividade e também um modo de contrapor práticas e o sistema essencialmente discriminatórios, estabelecendo-se como uma voz para o povo negro e servindo como veículo e documentação sobre a luta em favor da equidade racial.
Ainda em 2020, a imprensa negra tem o papel de documentar sua luta e história. Trata-se de um compromisso político realizado por e para negros – “A maior parte dos profissionais jornalistas é branca e a cobertura da mídia tradicional pouco fala da realidade do povo negro nos dias de hoje”.
Felizmente, com a crescente democratização do acesso à internet e suas ferramentas, a imprensa negra conquistou mais espaço na área digital e vem alcançando maior público e visibilidade em portais como Correio Nagô, O Menelick, Alma Preta e Blogueiras Negras. Embora o panorama soe positivo, a equidade racial não foi completamente alcançada e a mídia negra ainda tem muito trabalho a fazer.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

PREFEITO DE SÃO PAULO SANCIONA LEI QUE DÁ O NOME DE MARIELLE FRANCO À PRAÇA EM BRASILÂNDIA

Fonte: Estadão Edição: Adilson Gonçalves
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), sancionou na sexta-feira (24) a Lei 17.307/20, que batiza de Praça Marielle Franco uma área verde e de lazer da Brasilândia, distrito da zona norte da capital paulista. O espaço conta com uma quadra de esportes, bancos de cimento e algumas árvores
A homenagem faz referência à vereadora e ativista dos Direitos Humanos Marielle Franco, morta a tiros em março de 2018 junto com o motorista Anderson Gomes.
A lei advém de um projeto de autoria coletiva de mais de 30 vereadores de
diferentes partidos aprovada na Câmara Municipal no ano passado. A praça fica na rua Padre Achilles Silvestre, na altura do número 15.
Outro projeto de lei que tramita na Câmara de São Paulo também quer oficializar o nome da vereadora em uma escadaria entre as Ruas Cristiano Viana e Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, na zona oeste. O espaço já é popularmente chamado de Escadão Marielle Franco.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

MULHER NEGRA É ACUSADA INJUSTAMENTE DE ROUBO EM CURITIBA PRATICADO POR OUTRA PESSOA

 
Marli Teixeira Leite: "campanhas
educativas serão implementadas"
 
Texto e Edição: Adilson Gonçalves
Uma mulher negra foi acusada por um casal de idosos brancos de ser a autora do furto da carteira de outra mulher, branca, no interior de um ônibus do transporte público de Curitiba. A Polícia foi acionada e após a revista feita pelos policiais militares, alertados por outros passageiros constataram que a verdadeira  autora do furto era outra mulher, branca, que viajava  na parte traseira do coletivo. O caso aconteceu há exatamente uma semana, dia 16, quinta-feira, dentro de um ônibus bi-articulado na capital paranaense.  Um vídeo do incidente foi feito e postado nas redes sociais e até este domingo, 19, tinha atingindo  mais de 8 mil visualizações e 7, 8 mil compartilhamentos. 

 Em nota emitida à imprensa, a Polícia Militar informou que uma guarnição da corporação foi acionada, no dia 16/01/2020, por volta das 14h20, na região central de Curitiba, atendendo à uma comunicação do furto de uma carteira em um bi-articulado, e prontamente agiu. Segundo ainda a assessoria, “Os policiais entraram no ônibus, fizeram uma avaliação imediata e abordaram quem as vítimas indicaram, conseguindo, assim, recuperar os pertences das vítimas idosas que, naquele momento, encontravam-se em situação de vulnerabilidade. A PM abordou, neste caso, uma mulher negra, que foi indicada pelas vítimas, mas fez a abordagem com o consentimento dela, assim como abordou outra mulher, igualmente indicada no local”.
A Assessoria de Direitos Humanos – Promoção da Igualdade Racial  paranaense, através de sua titular,  Marli Teixeira Leite, lamentou o fato:
“É um caso que nos deixa extremamente tristes. Lamentamos que após 132 anos da abolição da escravatura a cor da pele continue definindo as chances de abordagem policial, o tratamento dado pela Justiça, e a intolerância as religiões de matrizes africanas. A Assessoria da Promoção da Igualdade Racial sempre promove campanhas publicitárias para combater o racismo e a injúria racial. Neste ano vamos intensificar os trabalhos”, explicou Marli Teixeira Leite, assessora da Promoção da Igualdade Racial.
As campanhas trabalham com orientações e explicam o que configura os crimes de racismo, preconceito e injúria racial. Marli Teixeira Leite explica ainda que pessoas negras que se sentirem discriminadas podem procurar a Assessoria da Promoção da Igualdade Racial para pedir apoio e orientações.
A Assessoria fica na Rua Barão do Rio Branco, 45, 2º andar, no Centro de Curitiba. O telefone de contato é o 3221-2712.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

NA CONTRAMÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO, PONTE PRETA TEM O PRIMEIRO PRESIDENTE NEGRO; CLUBE REINVIDICA AINDA O PIONEIRISMO NA UTILIZAÇÃO DO PRIMEIRO JOGADOR NEGRO

Fonte: El País Edição: Adilson Gonçalves
A Ponte Preta é um dos clubes que se destacam historicamente no combate ao racismo dentro do futebol brasileiro. Logo em 1900, 12 anos após a abolição da escravatura, o primeiro time principal da Macaca contava com Miguel do Carmo, negro e jogador de futebol, antes de qualquer outra equipe do país, motivo pelo qual os pontepretanos reivindicam o título de primeira democracia racial no esporte do Brasil. Apesar do pioneirismo, a equipe campineira demorou mais de um século para eleger um negro como representante máximo da instituição. Foi apenas em novembro de 2019, quando Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, herdou o cargo de presidente do clube após a renúncia de José Armando Abdalla. No momento que assumiu, Arcanjo também se tornou o único presidente negro entre os clubes das séries A e B do campeonato brasileiro. E, na contramão dos principais adversários, ele chegou anunciando três negros e uma mulher para compor a diretoria executiva da Ponte. “Obviamente a inclusão foi um critério, porque ela é necessária e atual”, conta Tiãozinho.
Sebastião foi vereador e deputado estadual pelo PT em Campinas antes de ser eleito vice de Abdalla no time de coração, onde anteriormente atuou como diretor de futebol. Hoje, o mandatário quer usar sua posição no clube para combater as desigualdades que identifica na sociedade. “Em qualquer organização, nós, negros, estamos a quilômetros das tomadas de decisão. No futebol, não somos notados além das quatro linhas. Vivemos em um país que está acostumado a mandar em nós e não a receber nossas ordens, por isso tenho um grande desafio pela frente”, diz o presidente.
Tiãozinho reclama da demora da Ponte em eleger um representante negro, mas admite que o problema reflete a “fotografia” da sociedade brasileira. “O nível de qualificação exigido fora de campo no futebol nos afasta. A estrutura acadêmica do Brasil obriga os mais pobres a escolherem entre estudar e trabalhar, e o negro normalmente precisa escolher o trabalho, o que nos afasta das atividades mais prestigiadas”. O presidente liga a falta de oportunidades ao país “historicamente racista”, mas vê na Ponte Preta, também pelo aspecto histórico do clube, o cenário ideal para combater a discriminação racial.A trajetória dos negros no clube campineiro começa com Miguel do Carmo
Miguel do Carmo
em 1900 e se estende pelos anos seguintes. Doze anos após a fundação, a Ponte Preta venceu pela primeira vez a Liga Operária de Foot-Ball Campineira com três negros no time: Amparense, Moraes e Benedito Aranha. “O goleiro Amparense foi o primeiro ídolo do clube”, conta José Moraes dos Santos Neto, historiador e pesquisador pontepretano. “Ter um presidente negro é resgatar e valorizar a memória da Ponte”, comemora ele.
A partir da década de 1920, a Ponte passou a sair de Campinas para disputar jogos em outras cidades. Conforme relata Neto, a torcida alvinegra acompanhava o time pelo interior paulista através das ferrovias do estado e, quando chegava na cidade onde o time jogaria, fazia o caminho da estação de trem até o estádio festejando pelas ruas. “Esse comportamento da torcida, que era em grande parte formada por mulatos e negros, fez com que ela recebesse o apelido racista de ‘macacada’. Os campineiros pegaram esse
preconceito e usaram como símbolo”. Hoje, a Ponte Preta tem o apelido de Macaca Querida e, além da versão fêmea, tem também um gorila como mascote.
No mesmo período, curiosamente, o clube também começou a receber influência da antiga elite campineira, formado por médios e grandes comerciantes brancos. Segundo o historiador, o fato ajuda a explicar a demora para que a Ponte tenha um mandatário negro. “Faltou representatividade [negra] no comando do futebol, embora ela sempre tenha sido grande entre os torcedores”, comenta Neto. O pesquisador enxerga em Tiãozinho não apenas uma exceção, mas alguém que “conhece a história e age em função da mudança”.A mudança começou a partir da nomeação dos novos componentes da diretoria executiva da Ponte Preta sob o comando de Sebastião Arcanjo. Entre outros,
Marcos
o presidente anunciou Marcos Antonio Ignacio da Silva como segundo diretor financeiro, Sérgio Roberto Acácio como diretor jurídico e Moacir Benedito Pereira como diretor comercial e de marketing. Os três negros vão na contramão do cenário atual do futebol
Sérgio
brasileiro ― somente Goiás e Grêmio possuem negros chefiando diretorias de futebol nas principais divisões do campeonato nacional. Ele também nomeou Graziela Andrade como primeira secretária. “Minhas escolhas também levam em conta os currículos, mas o mito da meritocracia é insuficiente para promover a inclusão em um país marcado pelo racismo”, comenta Tiãozinho.
Moacir
Diretoria e presidente ainda não definiram quem será o diretor de futebol da Ponte em 2020, cargo responsável por comandar o departamento profissional da Macaca. Mas, para Tiãozinho, é certo que a escolha também passará pelo critério da inclusão: “[O critério] precisa ser considerado. Queremos promover um programa racial no clube, não só na diretoria”. O mandatário conta que a ideia inicial ainda precisa ser consolidada e, para isso, mantém contato com a gestão do Bahia, clube que se popularizou ao adotar uma agenda de combate aos preconceitos no futebol. “A partir da conversa com eles, verificaremos quais ações são possíveis para o futuro. Eles são nossa inspiração”, conclui Tiãozinho. “E tomara que possamos inspirar mais clubes”.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

FEDERAÇÃO GAÚCHA DE FUTEBOL LANÇA CAMPANHA CONTRA O RACISMO E VIOLÊNCIA QUE SERÁ APLICADA EM SEU CAMPEONATO


Fonte Zero hora Edição: Adilson Gonçalves
A Federação Gaúcha de Futebol (FGF) apresentou, na tarde desta terça-feira (14), a campanha "Juntos - Contra a Violência e o Preconceito". Será uma série de ações ao longo de todo o ano com o objetivo de combater a discriminação no futebol. 
Além de vídeos de conscientização, a iniciativa vai qualificar os delegados e servidores que trabalham nas delegacias de estádios de todo o Estado. O Ministério Público, a Polícia Civil e a OAB também fazem parte do projeto.

O número de whatsapp (51) 98444-0606, da Polícia Civil, foi disponibilizado para receber denúncias. O resultado buscado pela campanha, segundo a Chefe da Polícia Civil do RS, Delegada Nadine Anflor, é abranger todos os envolvidos na situação.
— A gente não foca só na vítima, dizendo que ela tem de denunciar, não foca apenas no agressor, dizendo que ele não pode fazer mais aquilo, focamos em todos as pessoas que frequentam estádios, criando uma grande corrente pelo fim da discriminação no Estado — comentou Nadine.

Nesta quarta-feira (15) se iniciaram os treinamentos dos agentes da Polícia Civil que trabalham em jogos, começando pelos de Porto Alegre. A qualificação terá dois momentos. 
O primeiro é teórico, a partir de uma cartilha que explica as tipificações criminais. O material diferencia juridicamente — com exemplos das mais comuns — as situações de injúria racial, religiosa e racismo, entre outras que também estão na mira da campanha. 
A segunda etapa do treinamento será uma mesa de conversa com o objetivo de sensibilizar os agentes que recebem as denúncias em delegacias e estádios. Segundo a Delegada Shana Hartz, diretora do Departamento de Proteção a Grupo de Vulneráveis da Polícia Civil, é necessário uma abordagem focada em tornar o ambiente mais acolhedor aos que são atingidos ou presenciam ocorrências:
— Tanto denunciantes quanto vítimas. Que ninguém ache engraçado, que ninguém se cale. Que tragam este problema para a Polícia. O constrangimento tem de ser do agressor, e não para quem foi agredido.
A proposta da FGF é de que a campanha siga durante todo o ano nas competições por ela organizadas — desde as categorias de base. Além disso, os agentes policiais qualificados seguirão trabalhando na Arena e no Beira-Rio, em jogos do Brasileirão, Libertadores, Copa do Brasil e demais competições da dupla Gre-Nal.
Luciano Hocsman, presidente da FGF
— A ideia é uma ação propositiva, preventiva, e não reativa. Sempre vemos algumas ações que ocorrem pontualmente quando há algum tipo de ocorrência preconceituosa. Então é pegar pela conscientização da sociedade, do torcedor, para que isso não ocorra. Vamos trabalhar com isso durante todo o ano para chegar ao final do ano com outro cenário, que não o que aconteceu em 2019 — ponderou.
Com novas orientações para os juízes, o ano de 2019 registrou o maior número de denúncias de racismo no futebol brasileiro. O Observatório da Discriminação Racial do Futebol, coordenado por Marcelo Carvalho, contabilizou 56 casos de injúria racial.
— No momento político que o Brasil e o mundo vivem, de discursos de intolerância, o cidadão acha que também pode reproduzir isso, e o estádio de futebol reflete. Por outro lado, vejo maior conscientização de torcedores e jogadores — opinou Carvalho, acrescentando:
— Uma ação nunca vai ser suficiente se as punições não forem, de fato, executadas. Se a pena não existir, o torcedor vai seguir com o sentimento de impunidade.

O presidente do Inter, Marcelo Medeiros, e o vice do Conselho Deliberativo do Grêmio, Alexandre Bugin, representaram as equipes da Capital no evento. Ambos falaram sobre a importância da campanha da Federação relacionando-a com projetos próprios. Medeiros relembrou a origem inclusiva do Colorado como clube, e ressaltou a cooperação que tem desempenhado no combate a violência nas arquibancadas junto a Promotoria do Torcedor do Ministério Público Estadual.
— Toda a sociedade gaúcha está engajada para que se tenha mais tolerância e um ambiente mais civilizado nas praças esportivas — pontuou, completando: — A pessoa que não tem um comportamento adequado para frequentar um estádio de futebol tem problemas para conviver em sociedade.
Alexandre Bugin destacou a necessidade de manter ações a longo prazo. Desde 20 de novembro, dia da consciência negra, o Grêmio trabalha com a iniciativa "Clube para Todos". O projeto visa utilizar as plataformas de comunicação para combater os preconceitos.
— É um trabalho muito longo, permanente. Não será de um ano para o outro que vai se transformar o cidadão. O preconceituoso, o racista, eles têm de se sentirem excluídos da sociedade — alertou Bugin.
O presidente da FGF, Luciano Hocsman, explicou que a inciativa começou a ser pensada em 2019, quando a FIFA estabeleceu novas posturas contra o racismo. Ele diz que a campanha foi planejada para ir além da preparação dos árbitros que apitarão o Gauchão 2020.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

CONFRATERNIZAÇÃO DE FINAL DO ANO DO MOVIMENTO NEGRO DO RIO DE JANEIRO FAZ AMARELINHO VIRAR PRETINHO

Fotos; redes sociais*  
Texto e edição:Adilson Gonçalves
O nome oficial é Restaurante e Bar Amarelinho, mas na tarde/noite daquela sexta feira,  dia 28 de dezembro, o nome daquele estabelecimento bem que poderia ser denominado de Pretinho. É que quase 200 integrantes do movimento negro do Rio de Janeiro reuniram-se em uma confraternização de final de ano.
 Figuras emblemáticas e icônicas do movimento negro, como Ruth Pinheiro, Yedo Ferreira, Nancy Rosa, Djalma Santos, José Luis  Germano, Lydia Garcia,  Edimé Tibeiro, Ras Adauto  entre outros, estiveram presentes, além, e claro,  de dois dos seus fundadores: Paulo Roberto Santos e Carlos Alberto Medeiros.

O evento é realizado há quase 40 anos, sempre no Amarelinho, na Cinelândia, tradicional área boêmia do Centro do Rio. Embora hoje tenha o nome oficial de Ocupação Amarelinho: Encontro Anual de Amigos e Militantes do Movimento Negro do Estado do Rio Janeiro, nem sempre foi assim e é Carlos Alberto Medeiros  quem explica:
- Na verdade, começamos com uma grande gozação. Eram cerca de sete homens que fundaram  a Sociedade  Ereta Ogbony. Conversávamos sobre tudo: mulheres, rumos e estratégias do movimento negro, situação politica, enfim vários assuntos, mas não éramos e nem somos machistas ou misógenos. - enfatiza.
 No entanto, Nancy Rosa de Azeredo, promotora cultural, ex-presidente cultural do  Clube Renascença, alfineta:
- Eram machistas sim. Era um clube do Bolinha. O evento somente tomou esta proporção, a de lotar o Amarelinho, quando as mulheres começaram a participar, há cerca de dois ou três anos. Acho isso importante, para que eles compreendam a força que têm as mulheres- enfatizou  Nancy, apoiada por Ruth Pinheiro. 
Para Yedo Ferreira, de 86 anos, referência e reverenciado pelo unanimimente pelos integrantes do Movimento Negro a reunião serve como elo entre as várias gerações do movimento negro:
Yedo Ferreira e Adauto Rass *Foto Zezinho Andrade
- É com alegria que vejo  minha gente engajada de várias idades, desde os menos jovens, como eu e alguns outros, àqueles que estão chegando agora à luta. É muito cativante ver isto-, afirmou emocionado.
Mas mesmo em meio à confraternização, não faltam os momentos de reflexão e de protestos. Medeiros analisa o aumento de casos de racismo, ocorridos, principalmente em Minas Gerais:
- Acho que muita gente vai achar estranho o que acho, mas considero isto positivo, pois estas pessoas estão tirando as máscaras. Em relação aos últimos anos obtivemos vários avanços. Hoje temos negros capacitados ocupando cargos chaves em grandes empresas, que compreenderam que quando elas excluem uma pessoa por questão de raça, gênero,  cor ou credo religioso, elas estão perdendo talento e principalmente dinheiro, que é o que elas visam. - afirma.
Embora o clima fosse de confraternização, não foi deixados de se traçar planos para 2020. A retomada da representatividade no legislativo pelos negros, diminuída nos últimos tempos, já neste ano, de eleições municipais, foi uma delas. Afinal a luta continua, ou como escreveu Wally Salomão , "A Felicidade do negro é uma felicidade guerreira"